Escolha do novo papa depende da interpretação da renúncia papal

Modernidade é um pesado desafio para os cardeais (foto: Getty Images)

Cardeais brasileiros reconhecem sentido de urgência no futuro da Igreja.
Modernidade é um pesado desafio para os cardeais

Texto William Waack

Tirar o quadro da parede é mesmo o fim de uma era? Interpretar a renúncia de Bento XVI definirá a escolha do sucessor, diz o jornalista espanhol Juan Arias, veterano vaticanista.

“Conhecendo este papa, que eu conheci já quando ele tinha 35 anos, um grande intelectual, ele já tinha antes teorizado que um papa nunca deve renunciar. Se ele fez esse gesto é porque algo muito grave está acontecendo na Igreja e, concretamente, no Vaticano”, diz Arias, do El Pais.

De fato, ao falar da própria renúncia, Bento XVI usou uma imagem forte da Bíblia: a do barco com os apóstolos, surpreendido por mau tempo no mar da Galileia. Brilhante intelectual, o papa emérito é um devoto de Santo Agostinho, e da ideia de que, na cidade dos homens, não há salvação. Só existe na cidade de Deus, só na Igreja.

Para Bento XVI, é a Igreja que protege a pureza da fé, igual a uma noz, o fruto da nogueira que ele mandou plantar no jardim de sua casa na Alemanha, especificamente na Baviera, no meio do país central da Europa, que é, por sua vez, o centro da Igreja.

A Baviera do papa emérito é o lugar de católicos perfeitos. Não são bilhões, mas, para ele, qualidade é melhor do que número. Vêm de lá também seus críticos mais ácidos, como o teólogo Hans Küng, que não se cansou de repetir que Bento XVI não conduziria a Igreja ao futuro, ou o teólogo brasileiro Leonardo Boff, que teve com o então cardeal Joseph Ratzinger, no Vaticano, um épico confronto.

“A renúncia foi uma lição, uma bomba que ele lançou em cima da Cúria Romana, que praticamente se rebelou. Ele se deu conta do colapso do conceito de Igreja que sempre sustentou desde jovem professor e que, como teólogo, levou para dentro da Igreja”, afirma Boff.

Atribui-se ao papa que renunciou há uns 600 anos, São Celestino, outro favorito de Bento XVI, a incapacidade de lidar com a burocracia do Vaticano. Pelo jeito, pouco mudou: Bento XVI é criticado por não ter controlado a burocracia que levou ao escândalo do Banco do Vaticano, acusado de lavagem de dinheiro da máfia italiana, ou de controlar a reaçãoda burocracia, que foi  a de abafar os escândalos sexuais envolvendo a Igreja em vários países.

Herança de um antecessor messiânico, popular, carismático, mas desinteressado das lides internas da Cúria? Diante do peso do gesto da renúncia, cardeais brasileiros reconhecem um sentido de urgência no que a Igreja tem pela frente.

“A Igreja sempre deve se renovar, porque a história prossegue. A urgência vem pela natureza das coisas, das interrogações que são feitas à Igreja. Aconteceu agora, mas não vai atropelar e querer que se faça de qualquer jeito, não. A Igreja é chamada a fazer as coisas também com bastante oração e com bastante estudo”, afirma Dom Geraldo Majella, Bispo Emérito da Diocese de Salvador/BA.

O horizonte de tempo da Igreja é outro: para os cardeais, terminou há poucas horas o Concílio Vaticano II, que, na verdade, aconteceu meio século atrás. O concílio, para uma corrente da Igreja, reformou muito pouco a instituição. Para outra corrente, reformou demais.

“Eu creio que a Igreja ainda não explorou toda a riqueza dos documentos do Concílio Vaticano II. Acho que ainda há muito para fazer, fazer para a Igreja, e eu acho que o papa está dizendo para todos nós. Não se trata de reformas, digamos, acidentais, secundárias. Acho que são reformas muito mais profundas, o que está se exigindo da Igreja hoje em dia”, diz Dom Raymundo Damasceno, Arcebispo de Aparecida/SP.

O que fazer é, no fundo, o debate dos cardeais reunidos para escolher o novo papa. Os desafios da Igreja foram exaustivamente examinados por Bento XVI: secularização das sociedades modernas; fuga da Igreja, não só nos países europeus; relativismo cultural, quer dizer, ausência de princípios e de valores.

É um pesado desafio para os cardeais, o desafio da modernidade. Não vai desaparecer tirando o retrato da parede.

Fonte: Jornal da Globo

 

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